
A abertura para o capitalismo deixou algumas sequelas na Russia. A falta de perspectiva da população fez com que o consumo médio anual de vodka por habitante pulasse de 5 litros, no começo dos anos 90, para os 18 litros atuais. Além disso, o tráfico de mulheres tornou-se um grande problema no país. Esse cenário crítico e pouco falado é o ponto de partida para o conto policial Uma última dose para Aleksandr Boutov.

O romance O Jogo da Amarelinha, do Cortazar, é famoso por ter duas formas de leitura: a primeira que vai do capítulo 1 ao 56; e a segunda que começa pelo capítulo 73 e segue uma sequência maluca, sugerida pelo autor.
A história acompanha os passos de Horácio Oliveira, um argentino que vaga pela ruas de Paris a pensar, observar e procurar algo que não sabe bem o que é. O tom introspectivo do narrador argentino bateu forte em mim, um gaúcho em São Paulo. E me fez reparar em como nós do Sul (RS, Uruguai, Argentina) somos reservados e contidos.
Minha pretensão nunca foi escrever algo com tamanha complexidade e profundidade como O Jogo de Amarelinha, porém eu queria falar dessa terra de onde os homens não falam.

A ideia para o conto Cativeiro surgiu em 2009, quando li uma notícia sobre Natascha Kampusch, uma garota austriaca que ficou 10 anos presa em um porão. A reportagem conta como Natascha se sentia 3 anos após a fuga. É bem interessante.
Confira a matéria aqui

Apenar de o conto O Breu não ter nenhuma enfermeira assassina, a cena de Kill Bill é uma forte referência. O clima do hospital e o as reações da personagem ao acordar desnorteada me ajudaram a escrever o conto.
Desafio você a assistir à cena aqui e não ficar com a música na cabeça.

Em 2009, li uma reportagem da Super Interesante sobre o fato de 1% das crianças não se reconhecerem como pertencentes a um sexo. A materia contava as diferentes reações dos pais na formação dessas crianças. Para o conto inverti o foco e tentei retratar como seria o ponto de vista da criança.
Não encontrei a materia original, porém essa aqui é sobre o tema também.
Condicional trata da dificuldade de uma mulher em resgatar sua individualidade após o marido desaparecer. Apesar de passados alguns anos, cada gesto de sua rotina ainda parece estar preso a ele. Será que o amor é tão incondicional assim?

A letra da música Primeiro Andar, de Los Hermanos, foi a principal inspiração para o ponto de partida para criar a história de um cara que, em meio a Guerra Fria, larga a vida de escritor na Alemanha socialista em troca de um emprego de vendedor de seguros no outro lado do muro.
Pode escutar a música aqui

No dia 19 de julho de 1976, a quadrilha liderada por Albert Spaggiari (foto) cavou um túnel de 8 metros desde o esgoto e arrombou os cofres de uma agência bancária considerada inviolável. Era feriado e os caras teriam ficado quatro dias no banco, com tempo para um piquenique com vinho e patê. Antes de sair, Spaggiari escreveu nas paredes: “Sem ódio, sem violência e sem armas”.
Para o conto, contrapus essa história real e pacifica a o clima de uma guerra. O assalto ao banco ficou em segundo plano na trama.

No conto Parcialmente Nublado, o personagem perambula pelas ruas da cidade vazia. Nada de carros ou pessoas, tal qual Porto Alegre num final de semana de janeiro. Dai a inspiração.

O conto Marcele fala sobre adolescência. Mais especificamente, sobre como as palavras ”intensidade”, “vergonha” e “insegurança” andam de mãos dadas durante o período.
Escolhi que o conto se passasse nos anos 90, porque vivi a adolescência na década e porque a música Creep (1992), do Radiohead, influenciou bastante para eu chegar ao sentimento que pretendia transmitir.
Quer sentir um pouco do clima do conto? Escute Creep aqui

Três referências do cinema foram fundamentais para escrever o conto Elena: a Madrid de Almódovar; a figura sensual e vibrante de Penélope Cruz encenando a personagem Raimunda, em Volver; o personagem Norman Bates, de Psicose.

No ano de 1936, Dorothea Lenge, fotografou Florence Thompson, a verdadeira. A fotografia ganhou o título de Migrant Mother e tornou-se simbolo da Grande Depressão americana. A expressão de Florence com seus dois filhos frente ao cenário de um EUA devastado, me fez pensar: Que esperança movia essa mulher? Esse é o ponto de partida do conto Minha Mãe, Florence Thompson, que abre o livro.
Minha mãe, Florence Thompson
Elena
Marcele
Parcialmente Nublado
Societé Générale
Primeiro Andar
Condicional
Duda
O Breu
Cativeiro
De onde homens não falam
Uma última dose para Aleksandr Boutov
1. Retratar medo;
2. Fragilidade do homem e da civilização;
3. Valorizar detalhes particulares dos personagens;
4. Valorizar inícios;
5. Personagens trambiqueiros;
6. Real x Ideal;
7. Culpa;
8. Variar foco narrativo. Explorar narração diversa;
9. Passar por diversos cantos do mundo;
10. Fazer rir e chorar.

Uma das principais referência teóricas para escrever o Por Razões Desconhecidas foi o livro O Homem sem Gravidade, do psicólogo Charles Melman. A desconstrução dos pilares do indivíduo (família, religião, comunidade…) é o tema do livro. Recomendo a leitura. A forma que Melman trata das faltas de objetos de recalque, norte e sentido de pertencimento, ajudam a entender muito sobre a nossa vida. E me ajudaram bastante para compor personagens e tramas.
Segue um trecho que deixei separado nos rascunhos do livro:
“No que você está se segurando?
Quais são seus mecanismos diante dessa loucura toda?
Onde está você nisso tudo?
Vocês está só se lamentando?
Ou ainda dá tempo?”
(Charles Melman)